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Capítulo 7 será desenvolvido com foco no caminho sistêmico, apresentando todos os lançamentos mês a mês, com as contas debitadas e creditadas, como se tivessem sido processados por um ERP.

 

Mas afinal, o que é um ERP?

ERP é a sigla para Enterprise Resource Planning (Planejamento dos Recursos da Empresa). Trata-se de um sistema integrado de gestão empresarial que conecta os diversos setores da organização — compras, vendas, estoque, pessoal, bancos, fiscal, entre outros.

Na prática, a escrituração contábil é resultado da integração desses principais sistemas, que geram os registros para a contabilidade. Ao longo deste capítulo, trabalharemos com os seguintes módulos:

  • Faturamento – Emite e registra todas as notas fiscais de venda de mercadorias. Cada NF gera lançamentos de receita, ICMS e movimentação de estoque.

  • Compras – Registra as notas fiscais de entrada de mercadorias. Cada lançamento impacta o estoque, os fornecedores (contas a pagar) e os tributos recuperáveis.

  • Pessoal – Processa a folha de pagamento dos empregados e encargos trabalhistas/previdenciários. Gera lançamentos em despesas de pessoal, INSS, FGTS, IRRF, etc.

  • Financeiro/Bancos – Controla recebimentos, pagamentos, tarifas, aplicações e empréstimos. Alimenta as contas de caixa e bancos e gera conciliações automáticas.

  • Estoques – Registra entradas e saídas de mercadorias, calcula o CMV (Custo das Mercadorias Vendidas) e atualiza o saldo final de cada período.

  • Obrigações Tributárias – Consolida tributos a recolher (ICMS, PIS, COFINS, ISS, IRPJ, CSLL, etc.), integrando com os lançamentos fiscais e financeiros.

Importante: 

 

A qualidade da informação contábil depende da qualidade dos dados de origem. Se os sistemas receberem informações incorretas, a contabilidade também refletirá esse erro. Por isso, o papel do contador na validação e conciliação é insubstituível.

 

A grande sacada do ERP é que, ao registrar uma operação no módulo correspondente, os dados ficam disponíveis para a contabilidade. Em empresas maiores, essa integração pode ser automática e em tempo real; em empresas menores, ela ocorre muitas vezes por exportação e importação de arquivos. Em ambos os casos, o reflexo chega pronto para ser conciliado, interpretado e analisado pelo contador, sem a necessidade de digitar cada lançamento individualmente.

 

Assim, você verá como a contabilidade moderna acontece: os registros vêm dos sistemas da empresa, e o contador passa a se concentrar na conciliação, interpretação e análise.

 

Lançamentos eventuais não derivados dos sistemas operacionais

 

Apesar da automação, há lançamentos que não derivam de módulos operacionais e são registrados diretamente no sistema contábil. Exemplos:

  • Provisões contábeis: férias, 13º, contingências trabalhistas/tributárias.

  • Ajustes e reclassificações: transferências entre contas, estornos, ajustes de exercícios anteriores.

  • Depreciações, amortizações e exaustões: cálculos periódicos.

  • Reavaliações e baixas de ativos: venda, baixa ou ajuste a valor justo.

  • Distribuição de lucros e constituição de reservas: deliberações societárias.

  • Eventos eventuais: doações, patrocínios, perdas por sinistro, ajustes de conciliação contábil.

 

 

Caminho Sistêmico: encerramentos mensais

Ao final de cada mês, além dos lançamentos rotineiros, serão realizados procedimentos essenciais:

  • Provisionamento de impostos e contribuições – ICMS, PIS, COFINS, ISS, IRPJ, CSLL, etc., no regime de competência.

  • Provisionamento de encargos trabalhistas – Férias, 13º e encargos previdenciários reconhecidos periodicamente.

  • Apuração do CMV (Custo das Mercadorias Vendidas) – Conforme critério didático adotado para esse nosso livro.

Dessa forma, o aluno entende que a contabilidade é construída mês a mês, com ajustes, provisões e apurações que garantem a fidelidade das demonstrações.

 

 

Controle de estoque e apuração do CMV (critério didático)

Na prática contábil empresarial, ainda é comum que muitas empresas — principalmente micro e pequenas — lancem as compras de mercadorias diretamente no CMV no momento da aquisição, sem registrar o valor no estoque (ativo circulante). Com isso, cada compra já impacta imediatamente o resultado.

 

Somente ao final do exercício (em 31/12), fazem o chamado “aconchego contábil”, ajustando os saldos de Estoques (Ativo) e de CMV (Resultado) com base na contagem física das mercadorias apurada no último dia do ano (popular "Fechado para Balanço"). Esses ajustes são feitos para possibilitar o encerramento do exercício e a elaboração do Balanço Patrimonial e demais demonstrações contábeis exigidas pela legislação vigente.

 

Por que isso acontece? Pela busca de simplicidade operacional. A medida facilita a escrituração, reduz controles e agiliza o trabalho ao longo do ano, já que, na maioria dos casos, a contabilidade é mantida apenas para atender às obrigações fiscais, e não como ferramenta estratégica de gestão empresarial.

 

Esse “atalho contábil” atende ao fisco, mas distorce a essência das partidas dobradas, pois antecipa como despesa (CMV) um custo que ainda não ocorreu.

 

Na verdade, enquanto a mercadoria não for vendida, ela deve permanecer como um ativo, representando um bem com potencial de gerar receita futura — e não uma despesa já consumida.

 

CPC 16 (R1) – Estoques, aprovado pela Resolução CFC nº 1.187/2009, deixa isso muito claro:

“O custo de estoques deve compreender todos os custos de aquisição, de transformação e outros custos incorridos para trazer os estoques à sua condição e localização atuais.”

Em linguagem direta:


▪ O valor da compra, o frete sobre compras e demais custos diretamente relacionados à aquisição devem ser registrados no Ativo Circulante, na conta Estoques de Mercadorias.
▪ Somente no momento da venda é que parte desse estoque se transforma em custo — o Custo das Mercadorias Vendidas (CMV).

 

Seguindo esse raciocínio, o tratamento tecnicamente ideal exige que, a cada entrada de mercadorias, o estoque seja atualizado e, a cada venda, o sistema contabilize de forma automática a baixa do estoque e o CMV correspondente — nota fiscal por nota fiscal. Esse é o cenário ideal das empresas que utilizam a contabilidade também como instrumento de gestão, com controles permanentes e integrados de estoque. Mas sabemos que essa ainda não é a realidade predominante.

E agora vem o dilema didático:

Como tratar esse procedimento aqui no nosso Livro Digital de Contabilidade, lembrando que vamos simular a contabilidade de uma empresa ao longo de 12 meses consecutivos, passo a passo, lançamento por lançamento?

O propósito do Livro Virtual de Contabilidade

Este livro não nasceu para competir com manuais acadêmicos, mas para traduzir a contabilidade em linguagem viva, acessível e prática. Nosso propósito é ensinar a lógica contábil por dentro, mostrando como cada lançamento conta uma história — e como o contador é o intérprete dessa narrativa.

A contabilidade moderna é sistêmica e digital, mas o aprendizado precisa começar com o raciocínio, e não com o sistema.

Por isso, cada capítulo deste Livro Virtual resgata a lógica essencial das partidas dobradas antes de conduzir o aluno ao ambiente automatizado dos ERPs e do SPED.

 

Critério didático adotado para o estoque e CMV

Temos três opções na mesa:

a) Inventário Permanente (ou Contínuo)

É o método “realista”, usado por empresas médias e grandes, e recomendado pelo CPC 16. Cada compra e cada venda atualizam o saldo de estoque em tempo real.

Vantagem: precisão total.
Desvantagem: inviável para fins didáticos (muita ficha, muito detalhe).

 

b) Inventário Periódico Anual

É o modelo “antigo de guerra” — o estoque só é ajustado ao final do exercício (31/12). Durante o ano, as compras são registradas normalmente, e o CMV é apurado apenas ao final, pela fórmula:

CMV = EI + Compras – EF

Vantagem: simples, didático, ótimo pra ensino.
Desvantagem: o valor contábil do estoque fica “parado” o ano inteiro, o que não reflete a prática moderna.

 

c) Inventário Híbrido Mensal (nosso caminho didático)

Esse é o modelo que faz o Livro Virtual respirar entre o mundo real e o didático.

 

Para fins didáticos — e com base no propósito formador deste Livro Virtual — adotaremos uma abordagem que respeita a estrutura normativa, mas facilita a compreensão:

  • Todas as operações de compra e venda serão registradas pela primeira fórmula, evidenciando sempre os valores brutos destacados nas notas fiscais.
  • As compras de mercadorias entram diretamente em contas do Grupo "Estoques" no ativo circulante.
  • As vendas não baixam o estoque automaticamente, nota por nota, como no critério permanente, e sim pelo seu valor total mensal.
  • O ICMS destacado nas compras será transferido para a conta de ICMS a Recuperar e retirado do custo por meio de uma conta redutora dentro do Estoque, permitindo ao aluno visualizar que esse imposto não compõe o custo da mercadoria.
  • Da mesma forma, o ICMS destacado nas vendas seguirá o tratamento contábil normalmente adotado pelas empresas contribuintes do regime não cumulativo, sendo evidenciado como parcela integrante do valor bruto da operação e, em seguida, transferido para uma conta redutora da receita, com contrapartida em ICMS a Recuperar.
  • Para a apuração do CMV, adotaremos este método híbrido, utilizando uma conta transitória específica dentro do grupo de resultado, onde será demonstrada de forma clara a fórmula didática:

    CMV = Estoque Inicial + Compras Líquidas + Custos Incorporados − Estoque Final.

     

  • Estoque Final será obtido por controle extracontábil (como é comum em empresas que possuem sistemas de gestão integrados), sendo levado à contabilidade mediante ajuste mensal. Assim, o estoque no ativo circulante é atualizado mensalmente — nem parado, nem frenético.
  • A partir da conta transitória, o saldo líquido será transferido para a conta definitiva de CMV, demonstrando ao aluno como o custo efetivamente impacta o resultado.

Por fim, cabe destacar que esse modelo — que denominamos Inventário Híbrido Mensal — não é previsto formalmente em manuais tradicionais, mas resulta da adaptação pedagógica do método permanente ao ambiente de aprendizagem.
A metodologia busca manter a essência conceitual das normas do CPC 16 (R1) sem a complexidade operacional dos sistemas de controle contínuo, permitindo ao estudante compreender o ciclo completo da mercadoria dentro de um ritmo mensal.

 

Por que esse modelo foi escolhido

  • Mantém a transparência dos valores totais das operações (sem ocultar impostos ou custos);
  • Ensina o aluno a construir o raciocínio do custo, e não apenas a aceitar valores prontos;
  • Reproduz a lógica normativa defendida pelo CPC 16, ainda que com ajustes didáticos de periodicidade mensal;
  • Evita a geração de centenas de lançamentos por nota fiscal, mantendo a fluidez do aprendizado;
  • Prepara o aluno para entender tanto o método periódico quanto o permanente, sem recorrer a atalhos contábeis simplificadores.

 

Em resumo: mostramos como a contabilidade deveria ser feita, sem ignorar como ela muitas vezes é feita, mas transformando a prática didática em uma etapa de raciocínio lógico — não de decoreba de fórmulas.

 

Essa abordagem tem caráter didático e concentra a atenção do aluno na lógica da movimentação contábil, e não no controle físico das quantidades.

 

Por fim:

 

O modelo que adotamos é tecnicamente coerente e pedagogicamente inteligente.
Ele une a lógica do inventário permanente com a simplicidade do controle periódico.
O aluno aprende o que é o certo, pratica o que é possível e entende o porquê de cada lançamento.

 

Os procedimentos práticos de fechamento das contas do Grupo do Estoque (1.1.5) e das contas do Grupo do CMV (4.1.1), da forma aqui exposta, serão demonstrados, passo a passo, nos encerramentos mensais da nossa empresa “Sucesso”.

 

Caminho Prático no Excel (nosso “braçal” didático, com uso da Ferramenta)

Embora o foco do Capítulo 7 seja o caminho sistêmico, vale também mostrar o caminho “braçal” tradicional. Para treinar a escrita contábil — sem perder a lógica moderna — disponibilizamos uma Ferramenta em Excel que simula o trabalho de lançamento: você registra cada operação na aba Movimentos e o arquivo gera automaticamente o Livro Diário, as Fichas Razão (com saldo anterior e saldo final) e os Balancetes (Mensal e Anual).


Ao final de cada mês, o aluno pode confrontar o resultado do trabalho braçal obtido na Ferramenta Excel com aquele gerado automaticamente pelo caminho sistêmico (ERP).

 

Este caminho prático no Excel é opcional e fica a cargo do aluno: as informações necessárias estarão disponíveis para reproduzir cada lançamento, mas a proposta principal do capítulo segue o método sistêmico.

 

Para baixar a Ferramenta em Excel, CLIQUE AQUI (Será disponibilizada em breve)

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Objetivo pedagógico

Ao final deste capítulo, você terá percorrido um ciclo contábil completo de 12 meses, registrando e acompanhando todas as operações da empresa até chegar ao balanço de encerramento anual.

Os seis primeiros capítulos foram uma preparação necessária, uma espécie de aquecimento conceitual e didático:

  • Capítulo 1 – Contabilidade: é muito simples → a contabilidade explicada de forma acessível, mostrando que todos lidam com ela no dia a dia.

  • Capítulo 2 – Porque ora debitar ora creditar? → a lógica do débito e crédito, o alicerce da técnica contábil.

  • Capítulo 3 – A contabilidade do nosso dia a dia → a tradução da contabilidade para situações práticas e corriqueiras do dia a dia de qualquer pessoa física.

  • Capítulo 4 – A importância do passivo → compreensão da origem dos recursos na estrutura patrimonial.

  • Capítulo 5 – Da caneta tinteiro ao SPED digital → a evolução histórica da escrituração, do braçal até a era digital.

  • Capítulo 6 – Leis, normas e prática: o tripé contábil → o fundamento legal e normativo que sustenta a prática contábil.

 

Esses capítulos foram um aquecimento necessário. Agora, no Capítulo 7, vamos finalmente colocar a contabilidade para rodar em uma empresa ao longo de um ano inteiro, vendo como cada operação impacta os registros e, no fim, como tudo se conecta no balanço.

 

 

Texto disponibilizado em outubro/2025